Por um raciocínio muito comum, nós donos de pet acreditamos que o pelo dos cachorros façam com que eles sofram muito no verão, com o calor intenso. Nós os vemos ofegantes, deitados no piso gelado ou na sombra, queremos ajudar o quanto pudemos, então, o melhor que podemos fazer é tosar totalmente nossos peludinhos, para refrescá-los, né? Não é bem assim! Os pelos protegem o cachorro do calor.

 

Para entender melhor como isso funciona, conversamos com a Dra. Nicole, da Pet and the City, Pet Shop especializada em cuidados estéticos, localizada em Porto Alegre. Ela nos esclareceu tudo sobre o assunto, confira!

 

Para falar sobre pelo térmico, primeiro temos que compreender os processos termodinâmicos de perda de calor dos cães. Os animais basicamente perdem calor por:

 

​-  condução: ocorre quando o corpo está em contato direto com uma superfície mais fria. É justamente para proporcionar esta perda que o cão busca deitar em chãos frios ou em colchões feitos para o resfriamento;

 

- convecção: é a perda direta de calor entre o corpo e a atmosfera. Esta perda é facilitada pelo ar em movimento (por isso usamos ventiladores);

 

- radiação: é a perda direta do calor com o ambiente (esta perda não é significativa em cães, a não ser quando consideramos as diferentes pigmentações: o corpo pode refletir a energia incidente (o que é facilitado pelas pelagens claras) ou absorver esta energia (o que é facilitado pelas pelagens escuras);

 

- evaporação: é a maior responsável pela manutenção da temperatura corporal em mamíferos. Em cães basicamente esta se dá pela evaporação da umidade do focinho e língua (o cão ofegante perde muito mais calor) e este é o principal mecanismo de perda de calor do cão. Este efeito é maximizado pelo aumento do fluxo sanguíneo que ocorre nestas regiões no calor (e também nos coxins plantares), exposição total da língua e aumento da salivação – assim há resfriamento do sangue circulante e de todo o corpo consequentemente.

 

 A tosa para redução do calor procura aumentar a convecção (e também a condução quando feita no ventre, por permitir o maior  contato da pele com superfícies frias, quando o cão deita).

 

As propriedades das pelagens caninas que irão influenciar na perda térmica são basicamente:

- comprimento do pelo (por si não é tão importante – o comprimento tem sempre que ser analisado em conjunto com as outras propriedades de pelagem)

- espessura do pelo

- ângulo de inclinação do pelo

- densidade numérica (quantos pelos por cm2)

- pigmentação (pelagens claras refletem melhor a energia incidente que pelagens escuras. Esta vantagem é maximizada em pelagens curtas ou lisas, que minimizam a transmissão de certos tipos de ondas);

 Tipos de pelagem e recomendações quanto à tosa:

 

Cães de pelagem lisa, sem subpelo ou com pouco subpelo e em ângulo agudo em relação à pele (pelagem próxima a pele) - (Malteses, Yorks, Afghan Hounds, ShihTzus, Lhasas, etc.):

Como estes cães têm a pelagem lisa, que fica rente ao corpo, sem ou com pouco subpelo, não há grande vantagem na tosa, pois a convecção é facilitada por este tipo de pelagem. O ganho real só ocorreria se o pelo fosse tosado “zero” ou próximo disto, porém a exposição da pele direta a sol poderia acarretar outros problemas ao animal como dermatites actínicas. Nestas raças é bem comum a formação de nós, essa situação costuma ser muito problemática já que os nós que se formam cortam a circulação de ar e evitam a refrigeração natural, por isso a melhor maneira seria diminuir o tamanho da pelagem e combater os nós com uma boa escovação diária.

 

- Cães de pelagem lisa, com bastante subpelo (Golden Retrievers, Border Collie, Pastor-de-Shetland, etc...) e em ângulo agudo em relação à pele (pelagem próxima a pele):

Provavelmente os que mais têm a ganhar com a tosa, pois a presença do subpelo denso aumenta o isolamento térmico e prejudica a convecção. Uma alternativa à tosa em cães com este tipo de pelagem é a retirada do subpelo com pentes de dentes finos, rasqueadeiras ou tipo furminators.

 

Cães de pelagem crespa (Poodles, Bichons Frisés, etc...):

Como o ângulo reto do pelo com a pele (pelo sai praticamente perpendicular à pele) e a presença de subpelo (não muito denso; Bichons costumam ter mais subpelo que Poodles) há certo isolamento térmico e prejuízo da convecção (mas não muito, pois o subpelo não é muito denso). Há benefício da tosa baixa;

 

- Cães de pelagem dupla (Spitz Alemão, Chow Chow, Malamute, Samoieda, etc...):

Há grande isolamento térmico devido:

- Ao ângulo do pelo em relação à pele

- À grande densidade numérica e presença de subpelo (muitos pelos e subpelos por cm2)

Esta pelagem é a mais adaptada aos climas muito frios e nestas raças é que se faz a maior confusão entre o benefício da tosa ou a não tosa. Vamos lá:

- Se o cão estiver sob exposição solar em alta temperatura a tosa será PREJUDICIAL:

Diferente do que normalmente se imagina, quanto mais longo o comprimento do pelo melhor o animal suporta a exposição.

 

Mas, e fora do sol?

A frase que diz que a pelagem dupla “isola do frio no inverno e do calor no verão” não é correta! Podemos sim falar "protege do frio no inverno e do aquecimento provocado pelo sol no verão". Explico: quando falamos de isolamento térmico estamos falando da capacidade do corpo manter sua temperatura com o mínimo gasto de energia. O isolamento impede a perda de calor com o meio através justamente da redução da convecção, entretanto, quando a temperatura atmosférica está elevada, esta redução da convecção PREJUDICA a perda de calor...

 

Então devo tosar meu cão de pelagem dupla?

 A questão principal aqui é que justamente estas raças tem uma propensão a desenvolverem Alopecia Pós-Tosa (perda temporária ou definitiva, senil ou prematura, total ou parcial, de pelos ou cabelos.). Qualquer tosa muito baixa, que inclua o subpelo, pode levar a este quadro. Tosas mais altas (e seguras) não causam a Alopecia, mas também não interferem na convecção (pois não incluem a retirada do subpelo, o maior responsável pelo isolamento térmico), ou seja, de nada adiantam para o resfriamento.

 

Então o que fazer?

 O que podemos fazer é aumentar a perda de calor pelos outros meios!

- Uso de ventiladores: A perda de calor pela evaporação (e convecção) é facilitada pelo ar circulante: a água evapora mais depressa e leva o calor de forma mais eficiente na presença de vento

- Tosa “zero” da região ventral: a perda de calor pela condução (contato da pele com superfícies frias) pode ser maximizado com a tosa “zero” da região ventral (podendo se estender até a região do peito entre os membros anteriores) – esteticamente não há prejuízo e a área de superfície exposta é maior, permitindo maior perda quando o cão deita em superfícies frias (o uso de colchões que são excelentes condutores térmicos ajuda neste processo).

 

O que mais posso fazer?

 Cães com sobrepeso retém mais calor. Isto ocorre porque a gordura é um excelente isolante térmico. Cães com boa condição corporal tem mais condições de manter a temperatura corporal confortável através de perda térmica que animais com excesso de peso.

 

E cães se acostumam com o calor?

 Sim, cães vindos de outros países/estados com condições diversas passam por um processo chamado aclimatização. Basicamente o órgão e os mecanismos reguladores da homeostase térmica, ou seja, o Hipotálamo e a produção de diversos hormônios passam por uma transformação que permite a adaptação do cão ao novo ambiente. O processo completo pode levar até 60 dias. Neste período deve-se prestar especial atenção ao conforto térmico do animal, pois há maiores chances de intermação.

 

E aí, o que vocês acharam? Se você não sabia disso, não se sinta culpado! É por isso que é essencial contar com uma ampla rede credenciada, que cuida do seu pet em todos os campos da medicina veterinária.